O dia em que a bola parou!

Meus pais sempre incentivaram eu e minha irmã a praticar esportes e fazer atividades física. O exercício físico faz parte da minha vida, de tal forma que se eu passar alguns dias sem praticá-los, meu humor é afetado; fico impaciente, emotiva e inquieta. Desde que nos mudamos para Austrália, há 4 anos atrás, minha paixão tem sido o vôlei de praia. É na praia, no clube de vôlei onde nós encontramos nossos melhores e verdadeiros amigos aqui em Sydney. É interessante como a paixão pelo esporte é capaz de unir pessoas tão diferentes, dos mais diversos lugares do mundo, mas com um objetivo em comum.

Todos os finais de semana a praia é o nosso ponto de encontro, no momento que eu sinto a bola nas minhas mãos é quando o meu corpo todo vibra internamente, sinto o sol quente na pele, respiro o ar puro perante a beleza do mar, converso e teoco ideias com as pessoas que admiro, é ali que eu me encontro, renovo minhas energias e fico pronta para a próxima. É como se fosse uma terapia, um relaxamento ou uma meditação… Jogar tem um poder incrível sobre mim, me sinto completa, realizada. Os torneios e competições me trouxeram foco, determinação e auto-conhecimento, de modo que me tornei dependente desse esporte. Meu marido diz que quando não jogo fico muito chata e reativa. E o pior é que acho que ele tem razão… Do ponto de vista neurocientífico, quem a gente é, depende de onde a gente esteve, do que a gente pensa e do que a gente faz. Por uma questão evolutiva, nosso cérebro é capaz nos colocar no caminho para conseguir certas coisas que ele considera positivas e assim ele nos recompensa liberando dopamina numa região cerebral chamada mesolímbica cuja a sensação é de prazer intenso. De tal forma que queremos repetir esses comportamentos agradáveis inúmeras vezes.

Desde o mês passado o nosso clube de vôlei de praia está fechado por conta do COVID-19, sem data para retornar, devido a determinação do primeiro ministro aqui da Austrália que diz que não poderá haver reunião de mais de duas pessoas e uma distância social de 2 metros deve ser mantida entre as mesmas. Já são mais de 4 semanas sem jogar e sem ver as pessoas que se tornaram a nossa família aqui no exterior. O isolamento social dessa quarentena tem me mostrado o quanto dependemos uns dos outros afetivamente e o quanto era fundamental a ativação do meu sistema de recompensa cerebral, o qual mantinha a minha região do prazer sendo ativada de forma constante toda vez que eu ia jogar na praia. O fato de morar fora do Brasil, longe da nossa família, já faz uma diferença emocional enorme, uma vez que os nossos filhos crescem sem a presença física dos avós, tios e primos. Agora, temos q nos isolar também da nossa família do exterior e lidar sozinhos com as nossas mais variadas e profundas emoções. Talvez o meu vício não fosse apenas o jogo em si, mas sim o relacionamento com as pessoas, pois sinto saudades das risadas, das conversas, das jantas e piqueniques e da amigoterapia que fazíamos uns com os outros. O prazer de jogar talvez seja consequência de uma união de elementos, porque agora, na ausência deles, mesmo podendo praticar sozinha na mesma praia, não tem a menor graça, nem faz sentido…
Se for verdade que ser feliz e auto suficiente sozinha é fácil, eu terei que evoluir muito nessa vida para me despir dessas “amarras” emocionais do convívio social, pois a mais grandiosa e prazerosa emoção é o amor entre as pessoas.

#jornadadaescritaafetuosa

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