Ser mãe de um “Ozzie”

Vou aproveitar o momento maternidade que estou vivendo novamente para contar um pouco da minha experiência de ter meu filho aqui na Austrália. Como tive minha primeira filha no Brasil, procurei mostrar um pouco das diferenças tanto entre os sistemas e programas oferecidos às mães aqui.

É com imensa alegria que conto para vocês da chegada do nosso segundo filho, Matteo. Ele nasceu aqui em Sydney, Austrália, no início de 2018, pesando 3.2 kg e medindo 52cm. Um bebê lindo e saudável como eu sonhava! Nesse post conto para vocês como foi a minha experiência de ter um filho em outro país, com um sistema de saúde e uma linha de pensamento sobre o parto bem diferente do Brasil. Eu descobri que estava grávida em maio de 2017,  foi uma gravidez planejada e muito desejada. Quando estava com 6 semanas de gravidez fiz um teste de farmácia e o teste deu positivo. Bom, daí a gente pensa, então vou providenciar uma consulta com uma médica obstetra para solicitar um exame de sangue confirmatório e depois começar um pré-natal, certo?!! Errado! Aqui na Austrália, você dificilmente consulta um especialista sem passar antes pelo médico clínico geral (aqui chamado de GP). E se, e somente se o GP achar necessário você consultar com um especialista, ele é quem lhe dará uma solicitação, essa regra vale independente do tipo de especialidade médica. Ou seja, você nunca vai conseguir agendar um oculista, reumatologista ou ginecologista sem antes visitar o GP. Pois bem, tratei logo de consultar o GP que logo fez a solicitação dos exames necessários do pré-natal.

Se a sua gravidez não for de risco (não tem diabetes, nem pressão alta, etc) você fará no máximo 3 ecografias em toda sua gravidez. Você até pode fazer mais, mas terá que pagar caro por elas. Agora pensem na minha agonia, pois na minha primeira gravidez eu fiz uma eco por mês e no último mês uma por semana, kkkk!!! Vale lembrar que estou falando de sistema de saúde público aqui da Austrália e do sistema de saúde privado no Brasil, já me disseram que se eu tivesse ido pelo privado aqui na Austrália, também teria sido diferente… Eu usei muito pouco o SUS quando estava no Brasil, porque eu pagava plano de saúde,  mas aqui na Austrália a grande maioria das pessoas usa o sistema público, chamado de Medicare. O meu pré-natal foi bem assistido pelas enfermeiras obstétricas durante toda gestação, existe um acompanhamento pós-natal excelente também, além dos hospitais serem bem bons, não posso reclamar. Mas gostaria de comentar um pouco das diferenças que observei entre ganhar meu bebê no Brasil e depois aqui na Austrália…

1- O sistema de saúde aqui chama-se Medicare. Todo cidadão australiano e também os imigrantes que vivem no visto de Residente Permanente (que é o meu caso) tem direito a usufruir desse sistema. Na primeira semana que chegamos aqui na Austrália, em 2016, nós solicitamos o nosso cartão de saúde e já fomos incluídos no sistema. Qualquer problema de saúde que tivermos a gente procura um centro clínico para marcar uma consulta com um clínico geral (chamado aqui GP – general practice). Essas clinicas estão espalhadas por toda cidade, sendo que cada bairro possui as suas (sim geralmente mais de 2 clínicas por bairro), mas você pode consultar em outras regiões também, seu cartão é válido em qualquer clínica. As consultas são por conta do sistema público, quando são “bulk billing” você não paga nada, mas quando não é você paga a consulta e depois é reembolsado. Mas é claro que o sistema público não cobre tudo, existirão exames que você terá que pagar, mesmo com a solicitação do GP. Também é comum acontecer de algum exame ser pago por você, mas você receber o reembolso de parte do dinheiro. Na minha gestação as  3 ecografias que eu fiz, apenas uma foi paga integralmente pelo Medicare, as outras duas, parte eu paguei e parte o Medicare. O governo daqui ajuda com a saúde dos cidadãos mas também pede ajuda para manter o sistema funcionando. A partir dos 30 anos de idade você é convidado a fazer um plano de saúde privado, não para não usar mais o Medicare, mas para usar de forma conjunta, tipo, dar uma “aliviada” no sistema público, para incentivar os cidadão a fazer isso o governo deduz parte do imposto de renda do valor do plano de saúde. Caso você não constitua um plano de saúde privado após os 30 anos de idade, para cada ano adicional que você não pagar plano privado você perde uma percentagem de desconto para pagar o plano caso um dia você resolva aderir… Complicado né?!! Trocando em outras palavras, como a gente nunca sabe o dia de amanhã, as pessoas aqui que tem condições optam por fazer um plano de saúde privado a partir dos 30 anos. Se você nunca na vida fizer um, nada mudará e você fica atrelado ao sistema de saúde público (o que não é lá uma brastemp, mas não dá para reclamar tb..)  Mas se você resolver fazer um plano de saúde privado mais adiante você não terá os descontos oferecidos pelo governo e daí sairá bem mais caro.  Ou seja, isso é um incentivo/jogada do governo para quem pode fazer plano de saúde fazer, afim de ajudar o sistema público a pagar as contas.

2- Vocês observaram que eu falei anteriormente que você é bem assistido durante toda seu pré-natal pelas enfermeiras obstétricas e não pela médica obstétrica? Pois então, essa foi a primeira grande diferença para mim, aqui existem as “midwives”, que são enfermeiras obstétricas. As consultas mensais são sempre com elas, elas que solicitam exames de rotina gestacional, elas que solicitam ecografias e que fazem os exames físicos necessários durante a consulta. Se você não for uma gestante de risco você talvez ganhe o seu bebê com elas e nunca precise ver o médico. O médico só aparecerá se houver alguma emergência. Minha experiência com elas foi sempre muito boa, elas são agradáveis, procuram sempre te deixar à vontade, tiram dúvidas e são muito bem preparadas para isso.

3- Existe uma regra bem clara sobre fazer cesariana aqui. Só em caso de emergência!!! Já no Brasil é opcional, eu pude optar desde o primeiro momento se eu queria parto normal ou cesariana, não importa se era meu primeiro ou segundo filho. Aqui na Austrália se você está grávida pela primeira vez não será cogitada a possibilidade de cesárea durante toda sua gestação, ou seja, não é uma opção. A cesariana só será realizada se durante a gestação houver algum indicativo para isso ou se durante o parto houver alguma emergência indicativa de cesárea. Aqui na Austrália eles são muito categóricos e à favor do parto natural, inclusive sem analgesia peridural. Eles oferecem o gas hilariante para amenizar a dor e morfina também, mas a peridural será em último caso. O governo apoia e sustenta o parto natural, tanto pela saúde da mulher como por questões financeiras e econômicas. O meu caso foi bem diferente porque eu já tinha feito cesárea quando estava no Brasil, então, nesse caso, eu pude optar se eu queria fazer uma cesariana eletiva ou se eu queria tentar o parto natural. Mas eles quiseram saber detalhadamente o porquê de eu ter feito cesárea no Brasil e até hoje quando vou consultar um médico de rotina para meus filhos eles perguntam se o parto foi natural e quando eu digo que foi cesárea eles logo perguntam qual foi a intercorrência que ocorreu para eu ter feito cesárea. Quando eu estava grávida já de 37 semanas, a midwife marcou consulta para mim com um médico, pois é de praxe um obstetra explicar os prós e contras de um parto natural após uma cesárea e daí então eu devia tomar uma decisão e comunicá-lo. O médico deixou totalmente a meu critério, mas antes dessa consulta eu tive que ir em dois encontros com as midwives para elas explicarem que os riscos de fazer um parto normal após uma cesárea são mínimos para mim e para o bebê. A minha resposta foi que eu optaria pelo parto natural se eu entrasse em trabalho de parto até a semana 40, caso isso não acontecesse até essa data eu preferia fazer a cesárea. Portanto eles fizeram todos os procedimentos necessários para cesárea e respeitaram totalmente a minha decisão. Confesso que eu não sabia se era a decisão certa até o último minuto… Na verdade até hoje não sei se foi a melhor decisão, mas foi acertada, pois ele nasceu lindo e saudável e eu não tive nenhuma complicação a mais do que o esperado.

4- Quando chegou o grande dia, deixamos nossa filha com uma grande amiga e vizinha nossa e fomos para o hospital. Em torno de uma hora depois que chegamos lá, uma midwife já estava junto com a gente nos acompanhando em cada passo, organizou o nosso quarto e nos preparou para a cirurgia. A médica que fez a cesárea se apresentou para mim alguns minutos antes de me operar. Uma equipe inteira de profissionais ao meu redor assim como meu marido que era permitido acompanhar tudo e bater fotos também. Uma diferença interessante aqui foi que logo após o nascimento do Matteo ele foi colocado diretamente sobre o meu peito sem limpa-lo, sem aspirá-lo, sem nada, simplesmente retiraram da minha barriga e colocaram ele sobre mim e ali ele ficou por mais de 10min… (já mamando inclusive). Eles tem um programa chamado “skin to skin”, ou seja, não importa o tipo de parto o bebê deve ser colocado em contato com a pele da mãe logo ao nascer. Isso foi muito maravilhoso!!! Quando eu estava pronta para ir para sala de recuperação eles enrolaram Matteo num cobertor e o meu marido o levou até a sala de recuperação junto comigo. Lá eles me checaram e viram que o movimento das minhas pernas já estava começando a retornar, colocaram mantas de drenagem nas minhas pernas para ajudar na circulação e logo em seguida já fui para o quarto junto do meu filho e marido. O quarto era compartilhado com uma outra mãe, mas as instalações eram ótimas, não tive do que reclamar. As midwives vinham a cada minuto checar mãe e bebê, muito atenciosas e delicadas. Perceberam que eu não falei em banho? Aqui o bebê não toma banho quando nasce e nem no dia posterior, nem no próximo, kkkk sim, aqui o banho não é recomendado na primeira semana. Elas me explicaram que o vérnix (pasta branca que envolve o bebê) faz bem para a pele dele. Matteo ficou com essa pastinha branca e com resquícios de sangue até a gente chegar em casa e dar o primeiro banho, posso dizer por experiência que mal não fez, hehehe. Mas que o banho foi bem gostoso e cheiroso também!!! 🙂

5- Matteo nasceu numa quarta-feira e na sexta-feira as 12h fomos para casa. No Brasil, quando saímos do hospital acabou o serviço do médico e agora você passa a frequentar o pediatra rotineiramente. Aqui, no dia seguinte que eu estava em casa uma midwife veio me visitar, sim elas vem na sua casa!! Verificam o bebê, mas principalmente a mãe, seios, cicatriz e tudo mais. Estando tudo bem, elas te ligam no dia seguinte e retornam na tua casa dentro de uma semana para uma nova consulta em casa. Pesam o bebê, examinam a mãe novamente, fazem questionário para saber se você não tem nenhum sintoma de depressão pós-parto, te apresentam os telefones úteis para emergências com amamentação e com o bebê, te mostram os grupos de mães mais próximos da tua casa e te explicam folha por folha do “Blue Book” (um livro/caderneta de vacinação que toda criança ganha no hospital quando nasce e acompanha a criança até os 7 anos de idade contendo todas as informações do desenvolvimento, alimentação, estatura, peso e vacinação desde o nascimento). Eu achei essa atenção no pós-parto inédita, especial e maravilhosa, pois é realmente quando a mãe mais precisa de ajuda e quando surgem as dúvidas da vida real com o bebê. E principalmente a sensibilidade do sistema de perceber que é mais sensato a Midwife vir até a casa da família (e já até para observar onde vive essa criança) do que a família retornar uma semana depois. No entanto, passado esse primeiro mês do bebê é como se te dissessem, “ok, seu bebê está ótimo, boa sorte para o resto da vida dele”, heheheh to exagerando um pouco, mas não muito… Aqui não existe um pediatra que vai acompanhar o desenvolvimento do seu filho até um ano de idade e depois regularmente. Matteo foi visto por um pediatra quando nasceu e nunca mais, aliás ele só vê os médicos quando vai tomar as vacinas (somente os médicos podem vacinar), numa consulta super rápida em que nem tiram a roupa para pesa-lo.

6- Aqui na Austrália a amamentação é muito recomendada. É um dos critérios para você poder ir embora do hospital, estar amamentando bem o seu bebê. No meu caso foi super tranquilo, Mateo já nasceu mamando, então não tive problema com isso. Mas geralmente esse é um ponto delicado no pós-parto. Muitas mulheres tem dificuldade, eu mesma tive para amamentar a minha primeira filha. Nos dia seguinte do nascimento do seu bebê o hospital aqui oferece uma aula sobre amamentação, banho e cuidados com o bebê. Essa aula é ministrada pelas midwives. Elas desaconselham o uso de bico e mamadeiras, pois dizem que atrapalham o processo da amamentação. No entanto, se você não pode ou optou por não amamentar, sua opinião sempre será respeitada. Outra diferença é que o teste do pezinho é feito no hospital, no terceiro dia de vida do bebê. Se o bebê já tiver ido embora do hospital no terceiro dia de vida o teste é realizado durante a visita da midwife em casa mesmo.

7-  O Centrelink oferece um auxílio para licença maternidade/paternidade. No nosso caso quem estava trabalhando era o Tiago, então ele ganhou um auxílio de $1200 e direito a duas semanas sem trabalhar. A empresa que ele trabalha ofereceu uma semana de licença remunerada. Ou seja, Tiago teve direito a 3 semanas de licença paternidade remuneradas. Mas isso varia muito de empresa para empresa. Tem amigas minhas que ganharam até 2 anos de licença maternidade (não remuneradas claro), sendo 6 meses remunerados. Vai depender do tipo de contrato que sua empresa oferece.

Notem que não estou reclamando dos sistemas de saúde de ambos os países, estou apenas apontando as diferenças entre eles. Penso que se Matteo tivesse qualquer problema ou necessidade/risco especial os cuidados seriam diferentes. Acho também que é uma questão de se acostumar com o sistema de cada um. Pois se para mim era normal fazer exame ginecológico com preventivo de câncer, exame de sangue, exame de mama e etc todo ano com a minha ginecologista, aqui eles fazem apenas a cada 5 anos com um GP, a não ser que você venha com algum histórico que o médico considere necessário investigar, e isso não quer dizer que o sistema é melhor ou pior. No entanto se você for no médico porque desconfia de alguma mancha na sua pele, eles logo vão te solicitar vários exames, pois a incidência de câncer de pele é bem alta aqui. Tenho impressão que no Brasil os médicos trabalham mais na prevenção do que aqui, mas talvez seja somente impressão minha.

Vale ressaltar também que não pagamos nada referente ao hospital, anestesia, cirurgia, etc. Tudo por conta do Medicare. Mas isso só é possível porque o nosso visto é de Residente Permanente (PR). Caso estivéssemos no visto de estudo ou sponsor não teríamos direito de usufruir gratuitamente do sistema de saúde público.

Um grande abraço e um beijo no coração de todos!!

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